24 ago
2012

Os Três Eixos de Chartier

Meu projeto de mestrado baseia-se no que estamos chamando de os 3 eixos de Chartier, fazendo menção a um de seus textos quando fala de três aspectos que devem ser considerados quando falamos da evolução do livro: técnico, morfológico e material.

Aspecto técnico

“Em meados da década de 1450, só era possível reproduzir um texto copiando-o à mão, e de repente uma nova técnica, baseada nos tipos móveis e na prensa, transfigurou a relação com a cultura escrita” (Chartier, 1988, p.7).

Basicamente, havia um determinado modo de produção que dependia da qualidade do pulso de cada copista. Então, se cada um não sofresse de dores intermináveis, lesão por esforço repetitivo, cegueira e afins, poderíamos ter alguns livros copiados após dias ou meses. Com a invenção genial dos tipos móveis essa condição se alterou significativamente, pois pela primeira vez era possível ter uma produção em escala que permitia a impressão de até 1.500 exemplares. Acho interessante o fato de Chartier dizer que se trata de uma tiragem modesta. Entendo o que ele quer dizer, pois as tiragens de best-sellers são expressivas. O último livro de Harry Potter, vendeu 11 milhões de cópias em 24 horas. É insano. Porém, também se sabe que todas as outras obras que jamais vão atingir números estratosféricos também vendem e exigem atualmente a impressão sob demanda. Assim, mil e quinhentos exemplares pode não ser tão pouco assim.

Neste novo cenário digital, há novas mudanças com a inserção não apenas de novas ferramentas como paginadores (Quark, Pagemaker, InDesign), mas também a participação ativa de novos profissionais auxiliando a antiga casa editorial. Esses novos profissionais trazem conhecimentos apurados em outras áreas como HTML5, programação, roteirização, sonorização etc.

Aspecto morfológico

“A transformação não é tão absoluta como se diz: um livro manuscrito (sobretudo nos seus últimos séculos, XIV e XV) e um livro pós-Gutenberg baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais — as do códex” (Chartier, 1988, p.7).

O autor lembra que a forma que havia antes de Gutenberg é a mesma que iríamos ter após o tipo móvel. Curiosamente, nada mudou: o livro é formado por um conjunto de folhas dobradas, criando o formato do livro e seus cadernos. Como qualquer livro, essas folhas são costuradas, coladas e depois recebem a capa para proteção. Mais curioso ainda é saber que alguns elementos já existiam antes da prensa móvel: a diagramação do texto e alguns recursos como paginação, numeração, índice e sumário.

Entretanto, com o livro digital… Se antes havia o papel, agora, temos a tela. Somente aí, temos um sem-número de mudanças:

  • A página delimitava, pois era onde o texto se encaixava. Na tela, tudo é fluido e altera-se com o dispositivo, seja um PC, um tablet ou um e-reader;
    • Mesmo dentro de um PC, são diferentes navegadores e formas de se ler;
    • Em um tablet, há diferentes aplicativos;
  • Há quem diga que o digital é não linear. Há quem diga que o impresso ainda é mais não linear;
  • Antes, paginava-se. Agora, clica-se no botão. No máximo, arrasta-se a folha animada que está curvada no final do livro digital;
  • Antes, havia o cheiro do papel. Agora, a dureza da máquina.

Aspecto material

“Nos anos 1830, fixa-se a figura do editor que ainda conhecemos. Trata-se de uma profissão de natureza intelectual e comercial que visa buscar textos, encontrar autores, ligá-los ao editor, controlar o processo que vai da impressão da obra até a sua distribuição” (Chartier, 1988, p. 50).

Até pouco tempo atrás, percebe-se que o editor-empresário-empreendedor era a mesma figura que nasceu no século XIX. Ele tratava de toda a cadeia logística de uma obra:

  • Tratava de encontrar os bons autores, ou seja, o início de tudo ou o lugar onde nascem os textos;
  • Após leitura meticulosa, ele decide se irá ou não imprimir o material. Se sim, o texto passará nas mãos de outros editores, revisores, designers e ilustradores;
  • Após trato editorial, a obra caminha para os canais de distribuição que incluem e-commerce e vendas off-line, ou seja, canais de venda na internet e diferentes localidades off-line entre supermercados, livrarias e outros estabelecimentos.

Mas do mesmo modo que naquele tempo os autores queriam ser seus próprios editores, parece que com a tecnologia e a possibilidade de publicação digital, esse longo processo se encurtou.

O CreateSpace da Amazon, o iBooks Author da Apple e tantas outras iniciativas de auto-publicação têm cortado diversos elos na antiga cadeia de produção do livro. (Aparentemente, não se precisa mais de editores, revisores e ilustradores?)

Por fim

Se Gutenberg não foi capaz de mudar o eixo morfológico, a Revolução do Livro Digital foi. Pela primeira vez na história, o livro teve sua técnica de produção alterada, sua “carinha” também mudou e as relações comerciais que envolvem toda sua produção foram estremecidas.

Onde esta revolução para?

Ela irá parar?

Essas são cenas dos próximos capítulos.

So, what do you think?